quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Ouves- me Lucy?(Mais um pouco)

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rilke escreveu que; …amar é uma ocasião sublime concedida ao indivíduo para que ele possa amadurecer, tornar-se qualquer coisa dentro de si, tornar-se mundo, tornar-se mundo para si em nome de um outro…, sublime a definição. só que o caminho de aprender a amar é longo, não se resume à união entre dois seres. é necessário fazer uso de todo o querer e força, há muito para esclarecer e compreender, e em muitos momentos pela vida toda, é um caminho solitário. mas fazemos batota, saltamos etapas, facilitamos, e acabamos como única enguia que resta, numa poça de água estagnada no leito de um rio seco pelo estio.

lucy, a esta hora sei que não me ouves porque dormes, o teu dia foi extenuante, quase nem jantaste e foste deitar-te. e eu que apesar de ter tido um dia igualmente cheio, não resisto à minha necessidade de ficar por aqui a costurar desassossego. nesta pose nocturna de amante à espera que o sono se dispa e me leve com ele para a cama. inclino-me sobre as palavras que estendem o corpo nas linhas, para que eu possa dizer uma vida inteira absolutamente repartida. onde a sombra das dúvidas e o incerto nos interrompem o caminho de amar. respiro este silêncio de pedra que a noite me serve completamente nua de gestos.

nesta impossibilidade de estares comigo, entrego-me a escrever como se deitasse um olhar ao teu corpo e sustentasse o meu desejo. posso dizer que te amo sem enfrentar a negação do teu rosto. porque no teu corpo eu queria verdadeiramente dissolver-me até ao mais profundo do teu instinto. agora que verdadeiramente te escrevo no intento de aquecer o frio. incendiando o leito que partilhamos com o ardor do surto amoroso que um dia nos uniu. é nestas confidências quase adolescentes que às vezes me protejo, evitando o esquecimento e o deserto interior – demasiado lúcido é o vazio.

o vento uiva lá fora incessantemente dando voz aos sonhos em ruína por todo o universo. qual síntese da minha vida às avessas, nirvana da minha alma. a minha angústia clandestina que não me é permitido confessar publicamente – coisa de frouxos – segundo a lei social vigente. só eles; os frouxos, é que podem ter o descaramento e a fraqueza, de coexistir com a sensibilidade. e podem, por já estarem condenados a pena perpétua. o ceptro da aparência é soberano e impiedoso, brutal e indiferente. não podemos ser em público o que somos no refúgio da alma, porque a ambição odeia contacto da alma com a vida.

ardem-me os olhos, arde-me o corpo desde onde começa até onde termina, nas extremidades o ardor é mais agudo. e quanto mais a minha vida se dilata, mais avultam os defeitos. coisas da fraqueza e desatenção, a tragédia singular da banalidade de uma vida comum. os sonhos intrometem-se na vida e a vida priva-nos deles. só os que têm a coragem de enfrentar o julgamento e cumprir a pena, são capazes de sonhar verdadeiramente, porque acreditam no que sonham, e acreditar no que se sonha, é acreditar que se pode ser feliz.



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Antonio Paiva

http://www.antoniopaiva.net

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